domingo, 7 de agosto de 2016

Jejum

Costumava dormir de barriga cheia. E dormia satisfeito por assim dizer! Enquanto cochilava, facilmente surgia sorriso no rosto. Certo dia resolvi fazer um experimento: dormi com fome. Na verdade, sequer dormi. O barulho do estômago era combustível para o cérebro, e este não se aquietava. O coração começara a disparar, e meus reclames começaram a aparecer.
Noite longa, geladeira perto, vontade monstra de matar a fome. Resisti até raiar o dia, que nasceu ruim, difícil. Fraco, fiz o desjejum. Vesti as mesmas roupas, peguei o mesmo ônibus, a mesma fila, o mesmo tempo. Mas tudo é tão ruim hoje (deve ser porque não dormi), ou será que sempre foi? Me julgava enganado, mas não acreditava em meu engano.
Cheguei em casa, mas decidi repetir a experiência. Estava decidido a provar para mim mesmo que o ato de não jantar foi o que tornara meu dia pior. Não jantei. Deitei na cama, e olhando para o teto, ouvia o ponteiro do relógio parar - ou será que estava andando? A noite se arrastava, e os grilos ritmavam junto ao meu estômago sonoro. Senti saudade do conforto que um estômago cheio proporcionava. Critiquei-me mais vezes que todas as vezes que havia me criticado até então. Não sabia mais o que era fome e o que era dúvida. Um misto de enjoo e febre acorrentavam-se em minhas veias.
Repeti o processo mais algumas noites, até chegar à conclusão de que em mim, antes, havia mais estômago do que coração, mais ignorância que existência. Tive medo de nunca mais poder comer.
Então, na noite derradeira, havia decidido jantar, voltar à minha comodidade habitual. No prato por sobre a mesa, não via comida, não havia comida. Havia meu coração, meu cérebro e minha crítica temperada com sazon.
Comi tudo sem pensar, e dormi como um anjo, arrotando frases desconexas de penas, dores, poesias e realidades.

Fabiano Favretto

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