domingo, 23 de julho de 2017

Bendito Whisky

O frio estremece,
O jazz aquece.
O amor aparece;
E o whisky, amortece.

Fabiano Favretto

Canto de desabafo

Meu canto de desabafo
Não é um canto qualquer,
Pois se sozinho estiver,
Não estarei estupefato.

Esse meu canto
Não é aqui, nem lá
Não é em si, nem acolá;
Nem sequer dá dó.

Esse canto eu canto
E assim é,
É assim sem pranto,

Sem desencanto,
Sem fé
Sem próprio canto.

Fabiano Favretto

Dó a Dó

As notas estão
Todas soltas
No braço do violão;
Basta querer encontrá-las...
Ou não!

Fabiano Favretto

Corrói

Quando o vinho bate
Em conjunto com a vida,
Apanho, é um embate
De tanta dor sofrida.

E o Blues que me move,
Mas não menos me dói,
Pois este cão se comove
E minh'alma se corrói.

Fabiano Favreto

Glicose

Famigerada
Glicose,
Oh meu Deus,
De doce terei
Doce overdose.

Fabiano Favretto

domingo, 16 de julho de 2017

Paradoxos Culinários

Se eu cozinho
Quando estou só,
É porque de alguma maneira
Eu te encontro.

Frito, empano, asso,
Degusto.
Sozinho.

Se eu te encontro,
Eu não mais cozinho.
Seu tempero é suficiente,
E sua boca me devora.

Se eu cozinho,
Quando estou só
Sempre erro nas porções:
Não cozinho para mim somente;
Cozinho dois corações.

Fabiano Favretto

fAzia

Azia
Faz parte;
Mas antes,
Eu fazia
Arte.

Fabiano Favretto

Pele

A luz do sol
Adentrava pela janela
E pela cortina
Fazia desenho de rendas
Na tua branca pele;

A luz do sol
Te iluminava, e você bela,
Dama fina,
De beleza, uma oferenda
À flor da pele;

À luz do sol
Você como uma vela,
Não mais uma menina;
Vai, antes que me prenda
E o meu coração sele.

Fabiano Favretto

Eu, domingo

Domingo
Sendo
Domingo
Sobrevivendo ao
Domingo
Sofrendo
N'um domingo
E morrendo
Domingo.

Fabiano Favretto

terça-feira, 11 de julho de 2017

Para uma boca vermelha

I

Seguia a minha estrada,
Era noite e a Lua subia.
A tarde que era finada,

Dela nenhum resquício havia;
Começava o sereno a cair
E a dor, meu peito consumia.

A Lua continuava a subir
E a cor nunca foi tão amarela;
Lembrava que decidira fugir

Mas o coração não foge dela
A fim de se acabar aos poucos
Como assim acaba fina vela.

Eram dias deveras tão loucos!
Mas breves assim permaneciam
Como permanece meu peito: rouco.

II

As dores ainda me consumiam
E as penas eram as mesmas, então;
Eram as solidões que cresciam

E ocupavam todo meu coração.
Dei trégua à minha caminhada
Que fiz feroz até então:

Em silêncio na beira da estrada,
Respirei fundo e acendi um cigarro.
Não vi movimento, não havia nada

Além de na garganta o pigarro.
A Lua mais alta agora
Iluminou o chão de modo bizarro:

Sabe-se era noite, e a essa hora
Não deveria a rua estar iluminada
Pensei comigo: vou-me embora!

III

Retomei o ritmo da caminhada,
Temendo olhar por onde andei,
Com medo do que havia na estrada.

No entanto a Lua - me espantei
Parecia agora tão imóvel!
Como ela, assim paralisei:

Vinha vindo um automóvel,
Alta velocidade em minha direção,
O carro pilotado, ignóbil

Atingiu-me de raspão.
Um momento rápido anterior
Foi a minha salvação:

Um reflexo, movido pelo horror
Fez meu corpo um pouco se mover;
Mesmo assim fui atingido de dor.

IV

Pensei que iria morrer,
E o automóvel foi embora.
Meu sangue começou a escorrer,

Não sabia o que fazer naquela hora.
Comecei a me mover lentamente
Arrastando meu corpo de hora em hora

Para fora da estrada, que latente
Serpenteava em direção à cidade,
Mas estava eu tão distante

E sabia agora de minha dificuldade
De permanecer ao menos lúcido,
Sobrevivendo à própria calamidade.

Estava quase todo plácido,
Exceto pelo estado do peito meu:
Eu era tudo, menos lúcido.

V

A Lua ainda parada no céu
Sarreava do estado em que me achava:
Oferecia simples, o brilho seu.

Era a imagem do que faltava
Que a dor fez aumentar.
A noite fria assim avançava,

E uma luz no chão se fez cintilar:
Era um batom vermelho
Lembrei-me de você o usar

Naquela noite, em frente ao espelho
Enquanto olhava-me e sorria.
Sua boca como meu sangue vermelho

E seus olhos beijar, eu deveria;
És por mim (em segredo) amada
Mas morro (sozinho) assim, todavia.

Fabiano Favretto