domingo, 19 de novembro de 2017

Dissecado

Na sala de anatomia
Meu coração dissecado;
Ali, assim ocorreria
Uma aula, órgão analisado:

-Prestem atenção, classe
Eis um coração de poeta!
Vejam a forma incorreta...
O que ele diria se falasse?

Mas coração não fala
Muito menos depois de morto,
E quando morto à bala

Não tem mais desconforto,
Não mais se abala
E não bate mais torto.

Fabiano Favretto

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Movimentos do ritual para o nada

I - Do acordar:

Acordo e vejo a parede branca.
Acordo mas dormindo não estava,
Pois sono nos sonhos me levava,
E nestes não há verdade franca.

Meus pés tocam o chão frio,
Mas não encontro terra firme.
Não há nada que me afirme
Que ainda não saí do trilho.

Minhas mão percorrem o cabelo
Em busca dos primeiros pensamentos;
Encontro em mim alguns lamentos:
Nada do que vejo tem sido belo.

Permaneço sentado sem ação
Torcendo para que o acaso surpreenda;
Há apenas uma mosca na janela,
Nenhuma outra distração.

II - Da caminhada ao banheiro:

Enrijeço todos os músculos do corpo,
E em movimento metódico
Lento, porém períodico
Levanto com máximo esforço.

Tudo fica escuro por alguns segundos,
E perco a noção do espaço,
Pareço não encontrar o pedaço
Que está faltando em meu mundo.

Arrisco o primeiro passo,
É doloroso assumir mais um dia.
Outro passo, e a dor voltaria
Junto com meu velho cansaço.

Passo a passo chego ao banheiro,
Mas carrego todo o peso da vida;
Quão pesada é essa pequena ida
Para ver meus olhos marinheiros.

III - Da métrica da pasta de dentes:

Sabor de menta artificial,
O mistério das duplas cores contínuas;
Verde, simétricas as quatro linhas
Convergem sempre ao final.

Que segredo escondem os tubos,
Onde pastas de dente são guardadas,
Refrescantes, talvez amargas - resignadas
Fazem no dia o primeiro roubo.

Não tenho forças para apertar
E a pasta de dente chega ao final...
Essa derrota ainda me persegue afinal
Ao dormir e ao despertar.

Coloco toda minha pouca força
Entre meus dedos afinal,
E num movimento fatal
Nada faço mesmo que retorça.

IV - Da troca de pele necessária:

Desnudo e com frio,
Retiro os trapos de dormir.
Com a temperatura a cair
Eu não mais rio.

Visto a pele necessária,
Vã representação de "ordem",
Ordem essa que outrem
Julga ser não temporária.

Me vejo no espelho sujo,
Vestido daquilo que não sou.
Vestido para onde vou,
Representando ser dito e cujo.

A pele trocada fica em casa,
Mas à tarde volto para buscá-la.
Temo um dia não encontrá-la
E viver alheio sob esta casca.

V - Da morte diária:

Tudo simétrico e acertado,
Estou pronto para mais uma morte.
E a despeito da própria sorte,
Meu destino tenho encarado.

Mais um passo à frente,
O ar frio encontra meus pulmões,
Espasmos, gemidos, leões
Não seria uma manhã diferente.

Todo metro a mais andado,
Mais sinos tocam tristes
Não percebe? Não ouvistes?
É um triste e doce chamado.

Estradas de concreto onde vais
Além das curvas habituais,
Leva-me além destas quais
Me façam esquecer de meus ais.

Fabiano Favretto


domingo, 5 de novembro de 2017

Das fotografias esquecidas

Do retrato
De minha vida
Sobrou somente
Uma moldura.

Fabiano Favretto

Sinto muito

- Não estou bem.
- Então você sente?
- Não sinto nada.
- Desde quando?
- Olha, sinto muito.

Fabiano Favretto

Resíduo

Acordes menores
Demonstram o começo
De uma semana cujo desfecho
Terá dos maus os piores:

A ausência da vida diária
Que em suma é sofrível,
E tal ocasião jamais preterível
Será aceita de forma ordinária.

Não que eu tenha me acomodado,
Mas agora as dores já me fazem parte
E ainda tem me incomodado;

A forma como procuro arte,
Ou os gestos quando tenho andado
Mostram que o meu eu é descarte.

Fabiano Favretto

E quem tem conseguido?

Estou ficando louco
Com essa falta de sorte

E assim tampouco,
Não tenho evitado a morte.

E quem tem conseguido?

Fabiano Favretto

Mais um domingo

O que um domingo tem para oferecer
Além de uma cama vazia e gelada?
O que um domingo tem para oferecer
Além de uma tarde fria e nublada?
O que um domingo tem para oferecer
Senão o tempo rápido como escárnio?
O que um domingo tem para oferecer
Senão uma dose de infortúnios?
O que um domingo tem a oferecer
Além da solidão puramente ácida?
O que um domingo tem a oferecer
Além da desesperança nunca plácida?
O que um domingo tem a oferecer
Senão essa taça de amargura?
O que um domingo tem a oferecer
Senão essa realidade sórdida e dura?

Fabiano Favretto

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Ondas

Aqueles cabelos negros,
Cabelos negros e cacheados
Que lindos por inteiro,
Me deixam encantado.

Cabelos onde gostaria
De me perder noite e dia
Nas voltas que eu voltaria
E voltar porque queria.

Cabelos belos e perfumados,
Neles me encontraria feliz,
Pois estou assim tão admirado

Que não há palavra que me diz
O quanto deve ser deslumbrado
Tal momento que eu tanto quis!

Fabiano Favretto