sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Movimentos do ritual para o nada

I - Do acordar:

Acordo e vejo a parede branca.
Acordo mas dormindo não estava,
Pois sono nos sonhos me levava,
E nestes não há verdade franca.

Meus pés tocam o chão frio,
Mas não encontro terra firme.
Não há nada que me afirme
Que ainda não saí do trilho.

Minhas mão percorrem o cabelo
Em busca dos primeiros pensamentos;
Encontro em mim alguns lamentos:
Nada do que vejo tem sido belo.

Permaneço sentado sem ação
Torcendo para que o acaso surpreenda;
Há apenas uma mosca na janela,
Nenhuma outra distração.

II - Da caminhada ao banheiro:

Enrijeço todos os músculos do corpo,
E em movimento metódico
Lento, porém períodico
Levanto com máximo esforço.

Tudo fica escuro por alguns segundos,
E perco a noção do espaço,
Pareço não encontrar o pedaço
Que está faltando em meu mundo.

Arrisco o primeiro passo,
É doloroso assumir mais um dia.
Outro passo, e a dor voltaria
Junto com meu velho cansaço.

Passo a passo chego ao banheiro,
Mas carrego todo o peso da vida;
Quão pesada é essa pequena ida
Para ver meus olhos marinheiros.

III - Da métrica da pasta de dentes:

Sabor de menta artificial,
O mistério das duplas cores contínuas;
Verde, simétricas as quatro linhas
Convergem sempre ao final.

Que segredo escondem os tubos,
Onde pastas de dente são guardadas,
Refrescantes, talvez amargas - resignadas
Fazem no dia o primeiro roubo.

Não tenho forças para apertar
E a pasta de dente chega ao final...
Essa derrota ainda me persegue afinal
Ao dormir e ao despertar.

Coloco toda minha pouca força
Entre meus dedos afinal,
E num movimento fatal
Nada faço mesmo que retorça.

IV - Da troca de pele necessária:

Desnudo e com frio,
Retiro os trapos de dormir.
Com a temperatura a cair
Eu não mais rio.

Visto a pele necessária,
Vã representação de "ordem",
Ordem essa que outrem
Julga ser não temporária.

Me vejo no espelho sujo,
Vestido daquilo que não sou.
Vestido para onde vou,
Representando ser dito e cujo.

A pele trocada fica em casa,
Mas à tarde volto para buscá-la.
Temo um dia não encontrá-la
E viver alheio sob esta casca.

V - Da morte diária:

Tudo simétrico e acertado,
Estou pronto para mais uma morte.
E a despeito da própria sorte,
Meu destino tenho encarado.

Mais um passo à frente,
O ar frio encontra meus pulmões,
Espasmos, gemidos, leões
Não seria uma manhã diferente.

Todo metro a mais andado,
Mais sinos tocam tristes
Não percebe? Não ouvistes?
É um triste e doce chamado.

Estradas de concreto onde vais
Além das curvas habituais,
Leva-me além destas quais
Me façam esquecer de meus ais.

Fabiano Favretto


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