segunda-feira, 19 de abril de 2021

Rigor Mortis II

 I - O Caminho


Num caminho tortuoso

Caminhando ele estava,

E a toda hora imaginava

Que todo passo é perigoso.


O sol a pico ia queimando

Todo ser que ao relento ia,

Ao olhar para frente sua vista doía

Mas o violeiro continuava andando


Na mente daquele homem

Toda paz virava trevas,

E o caminho longo, deveras,

O deixava sem coragem.


Após andar grandes distâncias,

A torre de uma igreja o violeiro viu.

Da mesma igreja os sinos ouviu

E de receio, sentiu uma grande ânsia.


Encostou-se debaixo de um arbusto

Onde a sombra tornou-se abrigo,

Mas na verdade pensava consigo

Que aquilo que passava não era justo.


Em muito a sede corroía sua garganta

Enquanto ao centro da cidade ia chegando.

Avistou um bar, e nele logo foi entrando:

A bebida seria sua redenção sacrossanta.


II - A donzela


No balcão o violeiro chegou,

E ao bartender pediu um conhaque.

Com rosto franzido, o homem de fraque

Uma dose a ele entregou.


Ouviu uma voz ao seu lado

Que o seu nome havia proferido,

E ao ver quem era, ficou aturdido:

Uma linda donzela o havia chamado.


Ela após um riso cínico fala:

"Por que estás assim em frangalhos?

Ainda não terminou o seu trabalho!

Ou quer novamente encarar a vala?"


A bela imagem se desvaneceu,

Nos olhos vermelhos o mal ele viu.

Uma angústia no momento sentiu,

Mas o medo no momento perdeu.


Questionou assim, aquela mulher:

"Por que a mim apareceste agora?

Terminando meu drink, irei embora,

Então diga o que tem pra dizer!


Tome esta moeda agora,

Pois uma besta sua já derrotei,

E logo, esta parte do trato paguei.

Estou saindo! Te espero lá fora".


III - A tarefa


Estava um tanto cansado.

Esperava ele muito impaciente,

E num estalo, de repente

O Diabo apareceu ao seu lado.


Não tinha mais a forma daquela donzela,

E rindo, o Diabo já foi dizendo:

"Achastes que não sei o que vem acontecendo?

Tenho outra besta, e deve hoje mesmo detê-la"


Então o violeiro de modo sarcástico respondeu:

"Não me diga que é por que hoje é sexta-feira!

Pra mim essa coisa de monstros é tudo besteira,

E por que dentre tantos você me escolheu?"


"Não se sinta tão especial, violeiro,

Eu não te escolhi, apenas aconteceu.

Você teve tanto azar, amigo meu:

Foi você que me chamou primeiro


Deve você saber que não estou brincando:

Tu deverá derrotar hoje esta fera,

Pois ela aparece em uma específica era

Então trate de preparar logo um plano


Tome, pois estas cordas de prata

E afine sua viola de modo profano

Pois o monstro não tem ouvido humano.

Haverá tu de encontrar a afinação exata!"


IV -  A afinação

 

Colou-se a trocar as cordas

Mas sentia-se relutante.

O vento tornava-se ululante

Enquanto passavam as horas.


Ao trocar as cordas, com efeito,

Pensou em uma maneira de afinar

Não tinha ciência por onde começar

As cordas não estariam talvez com defeito?


Tentou de muitas maneiras diferentes,

Mas nenhuma resultou em modo bom

A noite havia chegado, e nenhum som

Parecia sair de uma forma eloquente.


Ouviu uma voz grave ao seu lado,

Havia dito que o Diabo o enganou

Mas ali nada ele enxergou.

Aquelas cordas não deveria ter trocado.


Um desespero começou a ele chegar,

Pois havia muito tempo com isso perdido,

As cordas antigas não mais serviam, e desiludido

Desistiu de pegar as cordas antigas e recolocar.


Detrás de uma  grande pilha de lenha veio

A besta que em direção ao violeiro correu.

A esperança do pobre coitado desvaneceu

Quando a besta partiu a viola ao meio.


V - A besta


Estava paralisado por tanta tensão

Pois não entendeu direito o que aconteceu,

Não sabia se era lobo ou homem o que apareceu

E aquilo estava voltando em sua direção


Tratou de mover-se imediatamente

Carregando a viola em pedaços:

Pelas cordas estava pendurado o braço

Balançando de um modo intermitente.


Viu um movimento de soslaio

E em direção à uma árvore alta correu

A besta no mesmo momento o surpreendeu

Aparecendo em sua frente como um raio


Em seguida veio rapidamente ao encontro,

Atropelando rapidamente o violeiro,

Que jogado pro alto por inteiro

Caiu de repente sobre o monstro


As cordas de prata enrolaram-se

No pescoço da fera que alto gritou.

Viu que as cordas de prata a queimou

Entao elas puxou ele mais forte!


De joelhos caiu a fera, com o pescoço queimando,

E logo o que era homem e lobo desistiu,

O violeiro com uma de suas maos ensistiu

Ir ainda mais as cordas apertando.


VI - A aparição


De repente um barulho ressoou:

Em fogo a criatura foi se transformando.

Ele rapidamente foi se afastando,

Mesmo assim uma mao queimou.


A moeda que no chão apareceu

Ele juntou e segurou firme em sua mão.

Estava cansado mais uma vez da situação

O que houve com a viola o entristeceu.


Enquando olhava a palma de sua mão

Novamente uma voz ouviu

Achou que estava ficando senil

Pois era a mesma voz que apareceu de antemão


À uma certa distância avistou alguém

E com passos trôpegos foi em direção.

Viu que era um sujeito com certa mansidão

E que tocava viola como ninguém


O sujeito de chapéu foi lhe contando

Que antigamente havia sido um dos melhores,

E que sabia que ali perto, nos arredores

Conserto para a viola poderia ir procurando


Uma ponte de esperança no violeiro surgiu,

E quando foi aquele homem agradecer,

Viu que ele acabara de desaparecer.

Então com a viola quebrada seu carreiro seguiu.


Fabiano Favretto



terça-feira, 13 de abril de 2021

Parasita

Parasitar

Para citar

A obra 

Sem referenciar.


Fabiano Favretto

Palmas

O segredo que agora conto

Do vôo que sempre estrova,

O pernilongo tanto tonto

Sua vida pelo sangue trava:


Milenares hematófagos,

Seus antepassados beberam

De faraós, antes do sarcófago;

Do sangue de reis se saciaram,


E voaram pelos jardins da Babilônia,

Picaram também Alexandre,

Que lá em Macedônia

Talvez passou raiva grande.


O pernilongo foi contemporâneo

De Gengis Khan e seu império,

Buscou sangue no subcutâneo

De todo o exército, com certo brio.


Presenciou as insônias de Dalí,

Que dos zumbidos surrealistas

Foi o salvador e agora vai

Ser sonho eterno de artista.


E a ti, mosquito medonho,

Palmas tenho que bater.

Meu dia anda tão enfadonho

Que em minhas mãos tem de morrer!


Fabiano Favretto

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Cultivando

Plantei cem razões,

Colhi sem igual.

As piores divisões

Foram exponencialmente

As das raízes quadradas.


Fabiano Favretto

Ortográfico

O céu da noite

Só não é seu

Por um pequeno

Capricho ortográfico.


Fabiano Favretto


Artérias

Uma canoa veloz

Descendo o rio

Rasgando os veios,

Veias e velhas

Artérias

Florestais.


Fabiano Favretto