terça-feira, 14 de abril de 2015

Própria s(m)orte


Mas o que é a morte, e o que é o tempo
Senão desventuras desta vida que passa?
Há um fúnebre e um lúgubre lamento
Quando a vida esvai-se tal qual fumaça.

E se os relógios não fossem regrados
À este nosso pequeno pedaço de tempo?
E os sinos das igrejas não fossem soados
Haveria-se de poupar entristecimento?

Como haveria um começo a propor-se
Se a terra virgem nunca fosse maculada?
Com os ossos e os espinhos a decompor-se
Nascem flores da semente germinada.

Como pode o homem, água e carbono
Acovardar-se perante ao fim eminente,
Abandonando sonhos neste sono eterno
Desta sua vida tola, banal e decadente?

Caixa de madeira, anéis de ouro e vermes
O relógio da natureza limpa o desnecessário.
Sobram cabelos, ossos sem tons de peles,
Faz o ouro a decoração do novo ossário.

E se os ponteiros dos relógios que avançam,
Retrocedessem de formas não-parnasianas:
Abririam-se os olhos que um dia se fecharam
E pouparia-nos de uma vida fria e profana?

Nesta vida a qual chamamos de tempo,
E nesta dança a qual chamamos de morte
Estamos nós nesta valsa com intento
De sobreviver a elegia da própria sorte.


Fabiano Favretto

4 comentários:

  1. vinicius nunca definiu-se totalmente. se poeta erudito ou popular. Incomodava a ele esta distinção. João Cabral de Melo Neto e ele tiveram várias discussões saborosas acerca do assunto; das famosas "vinicius voce não pode falar de outro órgão, além do coração", "claro que sim joão, se eu for bem educado pela pedra" ... entre outras. gosto de pensar que estes autores não são os templos das musas como a maioria das pessoas pensam - que também possuíam suas picuinhas, suas idiossincrasias, seus xiliques... xiliques fora, sempre gostei deste limite entre popular e eruditoe vinicius foi o que mais abarcou este espectro... as raízes de vinicius popular e erudito é o trovador, aquele que sai com sua viola de gamba pela idade média fazendo os mais diversos versos metrificados -- é obvio que principalmente divertia os palacios, mas também divertia os bordeis, as festas de rua -- um homem do mundo com livre acesso, entre o popular e o erudito... trovadores de verdade estão escassos hoje em dia, é preciso restaura-los

    um abraço

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    1. Boa tarde, caro ramonlvdiaz!
      Fico grato a cada comentário que por você é feito neste meu humilde blog. Admira-me seu conhecimento, e agora digo que muito aprendo com seus escritos.
      A respeito dos trovadores, não sei como encontrá-los. Tenho uma hipótese que estejam talvez escondidos em seus próprios mundos de folha e tinta, ou até mesmo em algum cantinho cibernético da internet.
      Sim, trovadores de verdade estão escassos hoje em dia, mas os antigos ainda são acessíveis.

      Abraços.

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  2. Belíssimo poema, Fabiano! Passei um ano pesquisando sobre o tema 'morte'. Descobri um universo absolutamente rico pelo mistério que carrega. E, neste contexto, olha que lindo este texto de Rubem Alves "A proximidade da morte ilumina a vida. Aquels que contemplam a morte nos olhos veem melhor, porque ela tem o poder de apagar do cenário tudo aquilo que não é essencial. Os olhos dos vivos tocados pela morte são puros. Eles veem aquilo que o amor tornou eterno." Conhece? Foi a epígrafe do nosso livro de TCC sobre o tema.
    Bjs

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    1. Ual!
      Que texto massa! Anotei-o aqui :D
      E ah, agradeço pelo elogio *--*
      Pensar em morte parece-nos ser uma coisa difícil e quase profana. Tentamos sempre dela fugir e viver até a última gota de vida. A imortalidade é impossível, e a morte é a única coisa que nós temos como certeza. Tenho comigo que tentando entendê-la, meus medos diminuam e minha vontade de viver continue crescendo. Morte é tabu. Vida é mais ainda. Pelo menos sei que na vida escrevo poesia. Se eu morrer, quem sabe não viro um "novo Brás Cubas", um defunto autor de poesia? aisudoasdgao
      Esse Machado me mata.

      Beijos,
      Fabiano Favretto

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