terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Monólogo do pato cego

- Não, eu não herdei a casa e nem qualquer bem;
Apenas, as penas que eram de meus pais
(E que até hoje as carrego).
Seria inoportuno dizer que tais coisas não me afligem,
Mas no entanto, estou a nadar de um lado a outro.
De um lago a outro, somente pelo olfato
É que me norteio para não quebrar a cara.
Me chamam de pato, trouxa,
Me chamam de cego, que não enxergo um palmo.
Um palmo em frente ao nariz (?)
Já expliquei para mim mesmo o motivo,
Milhares de vezes o motivo de tudo isso ter acontecido.
Há quem rume para o sul ao inverno,
Mas quem está no sul vai para onde?
Uma vida de bebedeira,
Farras, festas, drogas, bebidas.
Coleções de vícios, dos mais pesados
Aos mais insignificantes.
Tenho inveja de quem viveu assim
E não sente remorso.
Nunca vivi, e mesmo assim o sinto.
A casa foi doada à igreja.
O carro, leiloado e o dinheiro encaminhado
À um hospital famoso da região.
Todos pareciam cisnes em sua sórdida elegância
(Arrogância).
Eu,
Patinho feio, coitado sempre, vítima nunca,
Ousei errar, e errei com sucesso.
Não tenho um amor, não tenho uma vida.
Tenho entre meus dedos esta pele,
Que me faz continuar nadando.
Ao chegar a noite, eu paro e durmo.
No dia seguinte, continuo nadando.
O lago me conhece, e eu o conheço,
Logo, a relação entre tal conjuntura
Não é nada esclarecedora;
Só aprendi a levar as penas
E lavar as penas nesta água sem corrente.
Me falaram que eu sou cego
Por não querer bater as asas.
O que fazer se tenho medo de voar?

Fabiano Favretto

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