sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Crônicas de um Caipira #8

Para Nhô Filisbino, o dia de hoje é triste, frio e cruel. Mas carrega consigo esperanças.

O caipira, coitado, derramava as lágrimas quentes sobre a madeira gelada que estava a serrar.
É madrugada de domingo, e o Sol preguiçoso, custa a nascer. Ele não quer que nasça.
Com tábuas e pregos, vai tecendo a estrutura. Martela, bate e queixa-se do frio.
Ele pega uma pá e começa a  fazer uma cova. O trabalho o deixa satisfeito, mas lembra-se que o dia é triste.
Às 6 e meia da manhã os raios solares iluminam a estrutura em formato de caixão.

O dia amanhece, e antes que sua esposa acorde, ele volta à sua casa e deita-se à cama. Poucos minutos depois, Nhá Gertrudes acorda.

- Ô véio, ocê não cumprou a cama pra minha mãe inda? Ara, ela chêga hoje ômi.

- Num precisa não véia! Eu mêmo que fiz a cama. Tâmo meio sem dinhêro.. a prantação de cebola esse ano num deu boa não. Mais, como adoro minha sogrinha resorvi fazê uma surpresinha. Tenho certêza que ela vai caí dura de felicidade. 

- Crédo veio! Num diz isso não!

- Ué! Pode acontecê.. Ela pode gostá taanto da cama, que se batê as bota, vai querê sê sepurtada juntinha com a cama. Pois é. E como sô um cara previnido, fiz até um quarto pra ela!

- Como assim, véio? Exprica direito isso!

- Num é iguar aqueeeles quartão que tem na casa do barão lá.. Mais até que tem uns sete parmo de artura! 

- Sete parmo? Ocê feiz uma cova pra minha mãezinha? Foi? Seu bocó de mola!

- Eita lasquêra! Muié que só recrama mêmo! Se quisé dêxo uns quatro pármo só...

Fabiano Favretto

2 comentários:

  1. elomar - cantiga do estradar [excerto]

    Tá fechando sete tempo
    qui mia vida é camiá
    pulas istradas do mundo
    dia e noite sem pará
    Já visitei os sete rêno
    adonde eu tia qui cantá
    sete didal de veneno
    traguei sem pestanejá
    mais duras penas só eu veno
    ôtro cristão prá suportá
    sô irirmão do sufrimento
    de pauta vea c'a dô
    ajuntei no isquicimento
    o qui o baldono guardô
    meus meste a istrada e o vento
    quem na vida me insinô
    vô me alembrano na viage
    das pinura qui passei
    daquelas duras passage
    nos lugari adonde andei
    Só de pensá me dá friage
    nos sucesso qui assentei
    na mia lembrança
    ligião de condenados
    nos grilhão acorrentados
    nas treva da inguinorança
    sem a luiz do Grande Rei
    tudo isso eu vi nas mia andança
    nos tempo qui eu bascuiava
    o trecho alei
    tô de volta já faiz tempo
    qui dexei o meu lugá
    isso se deu cuano moço
    qui eu saí a percurá
    nas inlusão que hai no mundo
    nas bramura qui hai pru lá
    saltei pur prefundos pôço
    qui o Tioso tem pru lá
    Jesus livrô derna d'eu môço
    do raivoso me paiá
    já passei pur tantas prova
    inda tem prova a infrentá
    vô cantando mias trova
    qui ajuntei no camiá
    lá no céu vejo a lua nova
    cumpaia do istradá
    ele insinô qui nois vivesse
    a vida aqui só pru passá
    nois intonce invitasse
    o mau disejo e o coração
    nois prufiasse pra sê branco
    inda mais puro

    um abraço

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    1. Acho muito legal
      esse jeito caipira de se expressar.
      Ouso dizer, que sou caipira de coração.

      Abraços.

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