terça-feira, 3 de junho de 2014

O colecionador de dedicatórias

Não contentava-se somente com uma assinatura. Precisava de mais. Algo mais.
Sua imaginação fluía através da caligrafia, que já desbotada e suja tornava-se parte daquele velho livro. Quem sabe aquela dedicatória fosse sincera, ou talvez, somente alguns votos superficiais. A história de quem escreveu poderia ser análoga ao livro, ou até mesmo melhor que a própria estória no livro relatada.
Por onde antes andavam mãos criadoras de tão bela caligrafia? Por certo em superfície plana, macia, com formas repletas de cores e livre de acidentes. Ou talvez haviam tirado água do poço para depois lavarem-se e perfumarem-se com sabonete de pétalas de rosa. Pensava nisso, mas no fundo não acreditava.
Dormia e sonhava com a caligrafia enfeitada de arabescos. Imaginava a arranhadura da pena no papel fino, no momento da concepção da palavra. Faziam-se infinitas cenas em sua cabeça, todas eternas, simples e sublimes.
Continuou a comprar livros, agora em maioria usados. Lia-os.
E as dedicatórias? Tornavam-se uma coleção infinita de histórias.

Fabiano Favretto

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