sábado, 29 de junho de 2013

O riacho

A chuva caía, e o menino debruçado sob o próprio braço observava um pequeno riacho formado pela água que escorria do telhado ao lado de sua casa. Eram dias chuvosos como aquele que o faziam pensar em como os tempos mudaram, como ele mudou. Refletia a chegada e ausência das pessoas, e também interiorizava como havia de ser daquele momento em diante. A vida seguia como o pequeno riacho, buscando seu curso natural e carregando  para longe as folhas secas já caídas e esquecidas. Porém, as pedras mesmo pequenas continuavam no mesmo lugar.
Os relâmpagos surgiam aleatoriamente nas nuvens azuis quase esverdeadas, e faziam figuras engraçadas na parede atrás do menino. O dia já quase sucumbia e a noite chegava, mas o menino continuava lá, estático, quieto, observador. Buscava em imagens de relâmpagos refletidos, a compreensão dos caminhos tortuosos da vida e a razão do curso irregular que o tempo impunha sobre ele. Quando chovia, realizava-se o mesmo ritual de observação.
O tempo passava, e o homem já feito, observava a sua imagem refletida na grande janela de seu escritório no 14º andar. Queria seguir o curso do pequeno riacho, onde entender era melhor que esquecer. Ser criança novamente era algo impossível. Ao menos via algumas gotas pequenas e velozes que corriam janela abaixo. As gotas o faziam lembrar vagamente o pequeno riacho que levava suas melhores lembranças e pensamentos do tempo de infância. Era criança novamente.

Fabiano Favretto

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