domingo, 1 de julho de 2012

Crônicas de um caipira


- Êita véia! Não vai acordá não?
- Prá quê véio? Hoje é dumingo!
- E o que ocê tá pensano? Que dumingo é dia de féria? Vamo é levantá, purque Deus ajuda quem cedo madruga. Não é não?
- Tá bão véio, eu levranto. Máis vê se naum me enche mais u saco tá bao? Hoje eu já tô nervosa cocê e naum quero brigá!
- Óia óia véia! Vô descê no riacho tomá banho. Prepára um café bem quentinho pra mode eu mais ocê tomá? Já vorto..
- Que café uma óva! Véio caduco. Se bem que tô com uma fóme da moléstia. Vô prepará o café só pra mim e o véio que venha prepará o café dele.

Enquanto Belarmino descia até o riacho, Francisca iniciava a preparação do próprio café.

- Mas óia esse riacho! Tá até a boca de água. Também, com a chuvarada de onte não me assusta de que teja tão cheio. Eu vô aproveitá que a água tá suja e pescá uns bagrão haha. Mas espera antes vô raspá a barba e ficá bunitão pra minha véia. Ela vái tomá um sustão hahaha.
- Máis que diacho! O Belarmino tá demorano por demais. acho que vô desce no riacho vê o que tá aconteceno.

Francisca larga os preparativos do café, deixando o mesmo no fogo, calça a bota e vai em direção ao riacho. Enquanto Francisca sai de casa, Belarmino termina de aparar a sua barba de 30 centímetros de comprimento, ficando com aparência rejuvenescida.

- Pronto! Agora tá bão.. É só enxugá a cara e vortá pra casa.

Quando nhô Belarmino levanta abruptamente, perde o equilíbrio e cai de cara no barro à beira do riacho. Segundos depois chega Francisca que assustada olha para seu marido.

- Mas que diácho mêmo! Véia?! É você? me ajuda a saí daqui!
- Quem é ocê? o que feiz co Belarmino??
- Sô eu véia! Vem cá me ajudá!

Devido à barba cortada, e sua cara suja de lama, Belarmino ficou irreconhecível aos olhos de Francisca, que fica apavorada e pega um pedaço de madeira que estava no chão e vai em direção de seu marido.

- Devorva meu marido! Devorva meu Belarmino!
- Sô eu Chiquinha! Ai ai! Pára de me batê sua véia doida!

Em um movimento desesperado de defesa, Belarmino corre para o meio do riacho, e Francisca corre atrás. Ambos caem na água.

- Seu, seu, Véééio?? E não é que é ocê memo?
- Sua véia coróca, fez moiá tudo minha rôpa..
- Belaaarmino, ocê ficô bunitão mêmo! Parece aqueles hóme chiqui que passa nas televisão da venda doseu Juca lá na cidade!
- Nem fiquei não. Mas ocê acha memo?
- Acho sim! Fico memo.
- Véia, ocê não tá de jogá fora não! O que acha da gente comemorá? Mais antes vamo toma café né..

Belarmino pega Francisca no colo e a leva em direção à casa, quando chegam perto de casa, vêem fumaça saindo pela janela.

- Véia, nosso paió tá queimano!
- Acho que esqueci o café no fogo..
- Mas nem pra faze café ocê presta né véia?
- E quem disse que o café era pra vóis mecê?
- Ahh intão é desse tipo Véia?
- É sim Véio. Tamém ocê nem parecia artista de tevelizao memo. Hum!
- Óia que pareço sim!
- Parece não!
- Sim!
- Não!
- Sim!
- Não!

Em um ranchinho, em meio à mata, sob o assovio de sabiás em bem-te-vis, um casal de velhos caipiras e ranzinzas brigam entre si. Nesta altura do campeonato já não sabem por que discutem e repentinamente ficam em silêncio.
Logo se entreolham, se beijam e andam abraçados em direção à casa fumacenta.
Antes de entrar, ambos param e Belarmino sussurra ao ouvido de Francisca:

- Chiquinha, eu te amo.


Fabiano Favretto

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