segunda-feira, 23 de abril de 2012

A lixeira

   Um dia, quando lhe perguntarem onde é que nasceu,
a moça poderá responder, sorrindo: “Na lixeira.” Pois
realmente foi ali que a jogaram, entre cascas de banana
e borra de café, para que não vivesse; e foi dali que a
retiraram, viva, para que desse testemunho: até numa lixeira
a vida pode começar.
   O suposto nascimento anterior, num quarto, não vale
para essa menina da Rua Pedro Américo; ele se consumou
na clandestinidade, a contragosto da mãe, talvez sem que o
pai tivesse notícia e mesmo sem que a mãe tivesse notícia do
pai. Não era desejado, não veio precedido de amor, mas de
vergonha, medo, angústia, recriminação. Quem nasce sob
tais condições negativas é como se não nascesse, e a lixeira
foi o instrumento providencial que ocorreu à mãe dessa
menina errada, para anular, em escala individual, o efeito da
explosão demográ?ca. Enquanto não se decide a construção
de crematórios para os que acabam regularmente, aí está,
para os que começam irregularmente, o incinerador do lixo
doméstico. Nem seria preciso queimar a menina, com os
demais detritos da casa. A morte viria logo  – necessária,
oportuna, benfazeja.
   Mas, naquele dia, a lixeira reagiu de forma
imprevista, abstendo-se de cumprir a missão que já tantas
mães solteiras, desesperadas ou não, lhe con?aram. Ficou
surda aos argumentos sociais, morais e econômicos que
demonstram a inconveniência de salvar-se uma vida de
origem equívoca e de custeio incerto. Guardou a menina
como a lixeira pode guardar, sem qualquer cuidado higiênico
ou resquício de conforto, mas guardou-a. Não lhe abafou o
chorinho com o desmoronamento de um pacote de restos de
cozinha, ou a queda de uma lata vazia de pessegada sobre a
cabeça. Na verdade, estimulou-a a chorar e bradar, dandolhe
ar pútrido e temperatura de fornalha, para que melhor
protestasse e atraísse, pelo sofrimento revoltado, a atenção
do faxineiro.
   E chegou o faxineiro e tirou daquelas entranhas
a recém-nascida, como o obstetra faz o parto. Estava
nascendo, na porcaria, uma criança; e outro menino não
nasceu, faz muito tempo, num cocho de comida de animais,
no estábulo, entre o farelo e o milho? A lixeira pode fazer
as vezes de maternidade, berçário moderno para a vida que
quer manifestar-se de qualquer modo e não encontra outra
saída. O obscuro humanitarismo, a piedade e a simpatia
dessa lixeira, não salvaram, criaram a vida. Foi lá que a
criança verdadeiramente nasceu, quando os seres humanos,
a ordem econômica e os últimos preconceitos lhe negaram
ou lhe impediram a existência.
   A menina, mais tarde, poderá dizer com alegria
reconhecida: “Devo minha vida a uma lixeira, foi nela que
vim ao mundo.” E nós também devemos alguma coisa a essa
lixeira: a lição de respeito à vida.

                                                                    Carlos Drummond de Andrade



   A vinda de uma criança ao mundo é coisa séria. Após nascer,
a mesma tem o simples direito à vida. Mas porque nem sempre
esse direito é respeitado?
   E as que não chegam a nascer? São abortadas do útero da "mãe"
por motivos em maioria fúteis e cruéis. Que mal esta criança fez?
   Ninguém tem direito de tirar a vida de seu semelhante, seja este
recém nascido, ou apenas um embrião.
   Infelizmente, isto sempre existirá. Talvez houvessem meios
por onde as pessoas se conscientizassem à respeito disso, de
dar valor à vida de uma criança. Ou então uma campanha mais eficaz
de prevenção à gravidez através de métodos contraceptivos evitaria
que muitas vidas começassem por um mero descuido.
   Se fizer filho, crie-o. Não abandone um inocente para que o mesmo
ache seu fim antecipadamente.

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