Pintei vidro
Na tinta a óleo.
A taça quebrou
E a tinta vermelha
De vinho
Escorreu pela tela.
Fabiano Favretto
Pintei vidro
Na tinta a óleo.
A taça quebrou
E a tinta vermelha
De vinho
Escorreu pela tela.
Fabiano Favretto
Na fronte
A frase
Afronta,
E em frente
Frisando
Afrouxa.
A fria
Fruta
Defronta:
A franca
Se sofre,
Se Frustra.
Fabiano Favretto
Recorro agora ao medo,
Sentimento tão contemporâneo.
Ele que cresce nas hachuras
Desenhadas em remendos
Do nosso tempo instantâneo,
Repletos de ranhuras.
O medo que não é só amarelo,
Mas também invisível e covarde
A ponto de pronunciar-se
Ao decorrer do menor pesadelo.
O medo chega sem alarde
Nos fazendo suplicar por catarse.
Ora, tão primitivo e essencial
É esta parte de nosso intelecto:
O medo do que não conhecemos
Tem sido na evolução, crucial,
Em seus diversos aspectos.
O que acontece quando morremos?
Mas talvez o medo
Seja diferente da covardia.
Por detrás do medo há uma defesa,
Enquanto da covardia o enredo
É uma fajuta alegoria
Para o caçador que se torna presa.
O medo é nobre em sua essência,
Pois não é antônimo da coragem.
Há corajosos que por natureza
Não trazem em si sapiência,
Os atos carecem de pairagem.
Traz o medo, em si, a delicadeza.
O medo arrebatador
Nos paralisa e nos move.
O medo do que virá é certo,
E nem por isso é desmotivador.
O medo ao certo nos comove,
Há muito medo sob esse céu aberto.
Este velho amigo
Que é digno de tantos receios
Terei um dia melhor compreendido.
Seja na bonança ou no perigo,
Seja em quais forem os meios
O medo estará sempre comigo.
Fabiano Favretto
Flores são belas
Onde quer que elas nasçam.
Ruas estão em algum lugar
Ainda que não levem a lugar algum.
Brincadeiras sem graça alguma
Oneram o sentido da piada:
Leis são somente palavras
Sem qualquer validade.
Onde reside o rei cego?
Nada contra a correnteza da vida,
Afoga-se em leite condensado.
Rezemos para que larguem
Os ossos que talvez sobraram.
Fabiano Favretto
As estrelas são dentes de leite
Que estão prestes a cair
Em qualquer lugar
Da Via Láctea
Fabiano Favretto
A minha janela cujas madeiras
Foram surradas pelos dias,
Criou com resiliência
Musgos em suas ombreiras.
Olhei com certa curiosidade
Até onde os musgos apareceriam,
E vi que de verde toda a canaleta cobriam;
A janela estava travada com propriedade.
De que maneira havia ignorado
O avanço desta força oxidante?
Percebi estar diante
Da ausência do abrir, jamais executado.
Que falta me faz essa liberdade!
Que falta faz o ar que não mais entra.
O verde-musgo é a ferida que hoje marca
A minha janela nunca mais aberta à tarde.
Fabiano Favretto